Como um lugar tão rico em culturas é visto como um continente sem história e sem progresso? Como foi reduzido a uma condição de pobreza estrutural, tomado pela fome e pela miséria? Com o objetivo de discutir a imagem que os brasileiros têm sobre o continente africano, o Centro de Estudos Afro Brasileiros da Dom Helder (Afrodom) promoveu nesta segunda-feira (29) o seminário ‘O lugar da África no século XXI’.

O evento comemorou o Dia da África, celebrado anualmente no dia 25 de maio. A data foi instituída pela Organização da Unidade Africana, em 1963, com a proposta de libertar o continente do colonialismo, acabar com o apartheid e promover a emancipação dos povos africanos.

“Questionar é o nosso dever como seres humanos, e principalmente como acadêmicos. É o leme que guia toda nossa investigação. Qual é a imagem que temos da África? Certamente essa imagem não resplandece uma África positiva, ela também não revela uma África ativa e tampouco revela uma África sujeito de sua própria história e seu destino”, afirmou o pesquisador Pedro Andrade Matos, professor da Dom Helder e integrante do Afrodom. Ele foi responsável pela abertura do evento juntamente com as professoras Adriana Camatta e Lívia Maria C. G. Souza, também integrantes do Centro.

Em sua fala, Pedro lembrou a grandeza do continente africano, que possui 54 países e 30 milhões de quilômetros quadrados. “É um território equivalente a quatro Brasis”, comparou. Outro ponto levantado pelo pesquisador foi o perigo de uma história única, que legitima a voz do narrador e reproduz injustiças e incompreensões. “Há um provérbio que diz: até que os leões inventem suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis. Por um longo período, as nossas histórias foram contadas pelos outros, que se colocavam como superiores e civilizados. E eles retrataram os povos africanos como inferiores, bárbaros”, afirmou.

O perigo de uma história única é também título de uma palestra ministrada pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie, que foi exibida na abertura do seminário. 

Convidados

Após o vídeo, os participantes acompanharam as palestras dos professores convidados: Vanda Praxedes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e José Gil Vicente, bolsista pós-doutorando CAPES-UNIVERSO. Com participação em pesquisas desenvolvidas em Cabo Verde e Angola, Vanda discutiu o tema ‘Re-conhecendo as Áfricas’, abordando os limites e desafios enfrentados quanto ao reconhecimento do continente africano e seu protagonismo na história universal.

“Precisamos conhecer a contribuição dos povos africanos que vieram para o Brasil e constituíram a nossa sociedade. Ainda temos alguns entraves epistemológicos que precisam ser superados para que, de fato, a história da África seja plenamente integrada no currículo da formação básica, superior e de professores”, apontou.

Já o pesquisador Gil Vicente, natural de Moçambique, falou sobre o lugar da África na cooperação internacional, com destaque para a atuação de empresas estrangeiras em Moçambique, como a Vale do Rio Doce e a Odebrecht. “Seriam projetos para o desenvolvimento? Ou seria uma recolonização? Afinal, o que procuram? Eles se dizem mais evoluídos, têm tudo, mas estão indo para a África de novo. Até o Fundo Monetário Internacional (FMI) veio com seus projetos. Mas me diga o nome de um país que se desenvolveu com essa ajuda. Não tem nenhum”, questionou.