Mesa composta pelo mediador Emilien Vilas Boas Reis (Dom Helder) e pelos debatedores Álvaro Ricardo de Souza Cruz (PUC/MG), Felipe Rodolfo de Carvalho (USP) e João Batista Moreira Pinto (Dom Helder).
Evento prossegue até sábado (28), em Belo Horizonte, com realização da Dom Helder Escola de Direito e da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). 

Como a filosofia de Emmanuel Lévinas pode inspirar o Direito? A pergunta foi lançada na tarde desta quinta-feira (26) aos pesquisadores, professores e estudantes reunidos para a primeira sessão temática do III Seminário Internacional Emmanuel Lévinas – Amor e Justiça. O evento é promovido pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) em parceria com a Dom Helder Escola de Direito, que sedia os debates nesta quinta e sexta-feira (26 e 27). O encerramento das atividades será realizado no sábado (28), na sede da FAJE em Belo Horizonte. 

Coube ao professor Nilo Ribeiro Junior, coordenador do seminário, realizar a acolhida dos participantes. “Obrigado pela presença de todos, podem contar conosco durante esses dias que passarão em Belo Horizonte. Já vamos começar muito bem, porque temos uma discussão sobre o Direito e a Alteridade, com pessoas ilustres. Será um tempo de fecundas relações e profundas trocas de experiências entre nós”, afirmou Nilo. 

Para compor a mesa da primeira sessão temática, foram convidados os professores Émilien Vilas Boas Reis e João Batista Moreira Pinto, da Dom Helder, Felipe Rodolfo de Carvalho, da USP, e Álvaro Ricardo de Souza Cruz, da PUC/MG, que abriu as apresentações. “A primeira observação que eu faço é que, pelo menos na área da Filosofia, Lévinas sofre algum tipo de bullying”, apontou Álvaro. 

De acordo com o professor, isso acontece pela escrita extremante complexa, em forma de ‘ondas’. “Ele escreve sobre a mesma coisa diversas vezes, de maneira sempre diferenciada, acrescentando ou reduzindo alguma coisa, e afastando as noções de segurança que geralmente temos com a leitura de filósofos clássicos”, explicou. Outra crítica frequente é que as pesquisas de Lévinas não se encontrariam no campo da Filosofia, e sim da Teologia. 

“No Direito, as dificuldades são de outra ordem. Autores como Aroso Linhares, de Portugal, afirmam que Lévinas não cabe. Porque o Direito é da ordem da totalização, do logos, portanto o estabelecimento de qualquer tipo de pensamento levinasiano seria da ordem do devaneio e da impossibilidade”, afirmou Álvaro. Além de Linhares, o professor relacionou o pensamento de Lévinas com o trabalho de outros autores, como Jacques Derrida, Walter Benjamim e Eugenio Zaffaroni. 

No decorrer da palestra, Álvaro discutiu também o Estado de Exceção, a maneira eurocêntrica e ocidental de se pensar o Direito, e a situação de invisibilidade de grupos como as prostitutas, os moradores de rua e presidiários. “São situações nos incomodam cada vez mais. De vez em quando, eu preciso trazer pra fora os livros do Lévinas, porque ele me abafa e cobra demais, sem dó, uma posição de natureza ética. Nunca estivemos tão longe do ‘modo do outro’, de um pensamento altero. Nunca estivemos tão carentes do pensamento de Lévinas”, destacou Álvaro. 

A sessão temática contou ainda com palestra do professor Felipe Rodolfo de Carvalho, que trabalhou o tema ‘Direito e Alteridade’ com foco na dignidade da pessoa humana. “Nós, que somos juristas, lidamos com ela a todo o momento e temos dificuldade para descrevê-la. Afinal, o que é a dignidade da pessoa humana? Será que a partir de Emmanuel Lévinas conseguimos dar sentido a tal categoria?”, questionou. 

Para fechar as apresentações, o João Batista Moreira Pinto, da Dom Helder, falou sobre a importância da obra de Lévinas no contexto de desigualdade que afeta o mundo, e sobretudo, o Brasil. “Somos a décima sociedade mais desigual, e mantemos essa situação por séculos. Não temos, no dia a dia, muitas chances de ver o lugar do outro que sofre, por várias estruturas de separação da sociedade. Mantemos os vidros fechados, moramos em condomínios em que as pessoas não podem se aproximar”, afirmou João Batista. 

De acordo como professor, essa realidade marcante destaca as potencialidades da teoria de Lévinas. “Ela nos faz pensar no papel da ética frente à politica, da ética frente ao Direito. Qual é o espaço da ética? Qual o espaço do compromisso com o outro que sofre? A teoria de Levinás me tocou muito, sobretudo nesse sentido. O olhar para o outro exige um comprometimento muito grande”, completou. 

III Seminário

O objetivo do evento é fortalecer as atividades de pesquisas dos membros do Centro Brasileiro de estudos sobre Emmanuel Lévinas (CEBEL) e do GT Lévinas (ANPOF), além das atividades de vários Grupos de Pesquisa (CNPq), discentes e docentes espalhados pelo Brasil. 

O seminário busca também divulgar o pensamento de Emmanuel Levinas para a comunidade científica de outros países, promovendo um espaço de debate em torno da filosofia levinasiana, a partir das múltiplas leituras possíveis da obra do autor. 

Veja a programação!

Texto: Patrícia Azevedo/Dom Total
Fotos: Larissa Troian/Dom Total 

 
Pró Reitoria Administrativa e coordenadora do Espaço Dom Helder  Cácia Stumpf e professora Ana Virgínia Gabrich
Pró Reitoria Administrativa e coordenadora do Espaço Dom Helder Cácia Stumpf e professora Ana Virgínia Gabrich
Diogo Villas Boas e Gregory Rial (FAJE), organizadores do evento, com Cácia Stumpf e Ana Virgínia Gabrich
Diogo Villas Boas e Gregory Rial (FAJE), organizadores do evento, com Cácia Stumpf e Ana Virgínia Gabrich
Professores se reuniram na sala VIP antes do início do evento
Professores se reuniram na sala VIP antes do início do evento
Professor Nilo Ribeiro Junior, coordenador do seminário
Professor Nilo Ribeiro Junior, coordenador do seminário
Cácia Stumpf e a advogada Thalita Troian
Cácia Stumpf e a advogada Thalita Troian
O mediador Émilien Vilas Boas Reis iniciou o evento
O mediador Émilien Vilas Boas Reis iniciou o evento
Público assistiu atentamente ao debate
Público assistiu atentamente ao debate
Professor Álvaro Ricardo de Souza
Professor Álvaro Ricardo de Souza
Professor João Batista Moreira Pinto (Dom Helder)
Professor João Batista Moreira Pinto (Dom Helder)
Professor Felipe Rodolfo de Carvalho (USP)
Professor Felipe Rodolfo de Carvalho (USP)