Uma mudança da mentalidade humana, um grito internacionalista por liberdade. Assim o professor Apolo Heringer Lisboa traduz o significado de 1968, ano que entrou para a história por uma série de acontecimentos importantes, em escala global. Meio século depois, o programa Dom Político coloca em debate as transformações ocorridas na época e suas influências no mundo atual. Antes da gravação com o professor Abraão Gracco, Apolo Heringer concedeu entrevista ao portal Dom Total. 

“Quando penso sobre o que significou 1968, meu foco vai para a questão da mudança da mentalidade do mundo. Havia um sentimento mundial, era o planeta Terra [até por causa da nave espacial, da primeira fotografia da Terra vista do espaço]. A gente passou a se enxergar como um todo. As divisões nacionais e continentais, que eram fortes, passaram a ter um limitador”, apontou Apolo, que é médico sanitarista formado pela UFMG. 

Entre os eventos que marcaram o referido ano, o professor destacou a prisão do boxeador Muhammad Ali, que se recusou a entrar no Exército dos Estados Unidos para lutar na Guerra do Vietnã, a greve geral na França, que mobilizou mais de sete milhões de trabalhadores, e o Massacre de Tlatelolco, no México, em que militares e paramilitares abriram fogo contra cerca de oito mil estudantes.

“Tivemos ainda o movimento estudantil no Brasil, a revolução cultural na China. Foi um grito internacionalista por liberdade, mas que se descolava muito do movimento comunista e das práticas da União Soviética. Então juntou o movimento hippie com o movimento negro, o feminista, o direito ao uso de anticoncepcional, a questão do corpo da mulher, o movimento pacifista questionando guerra”, enumerou. 

Ao falar sobre o momento atual, Apolo apontou um cenário similar a 1968. “Temos hoje um mundo que luta por uma transformação também maior. Essa transformação questiona costumes, questiona o racismo, a questão de gênero. Tudo que estava abafado está saindo. Há também o questionamento das relações trabalhistas e econômicas, mas a direção dessas mudanças no mundo hoje está muito mais relacionada com a tecnologia, a informática e a gestão da informação”, afirmou. 

Durante a entrevista, o professor comentou ainda sobre a ditatura brasileira, período em que se destacou como um dos expoentes à resistência em Belo Horizonte. Foi preso algumas vezes e viveu no Chile, na Argentina, Argélia e na Europa, como exilado. De volta ao Brasil, Apolo obteve seu mestrado em Medicina Veterinária e doutorado em Educação, ambos pela UFMG.

Tornou-se conhecido como idealizador do Projeto Manuelzão, que trabalha pela despoluição do Rio das Velhas. Embora seu objetivo específico e operacional seja o de promover a volta dos peixes ao rio, o objetivo geral é transformar a mentalidade da população da bacia hidrográfica com respeito à recuperação ambiental. “Ele não foi criado como projeto ambientalista ou ecológico apenas, ele foi fundado como um projeto político, deslocando o foco da questão economicista para a questão da vida na terra, porque hoje no Brasil virou moda dar uma importância fundamental à economia”, comentou Apolo. 

Para o professor, o movimento ambiental hoje está ‘a reboque’ da produção capitalista mundial, incapaz de propor uma mudança ou teoria consistente. “Os ecologistas estão se vendendo como consultores, se vendendo para ganhar a vida, se vendendo a troco de cargo. O mundo está perdido sem o movimento ecossistêmico ou de ecologia integral, que ainda não criou essa teoria. Está criando e o momento é agora, para superar o atual sistema mundial”, defendeu. 

Confira:

Dom Político 7 | ​50 anos de 1968

Texto e fotos: Patrícia Azevedo/Dom Total